Aéreas temem turbulências em céus britânicos em caso de Brexit radical


Os céus britânicos podem sofrer turbulências no caso de um Brexit radical, e as companhias low cost, as que mais se beneficiaram do mercado único do transporte aéreo, podem ser as primeiras vítimas.

A irlandesa Ryanair e a britânica easyJet iniciaram um lobby intenso para que o novo acordo de transporte aéreo esteja entre as prioridades nas discussões entre a União Europeia (UE) e o Reino Unido.

A perspectiva de saída da Grã-Bretanha da União Europeia preocupa Michael O’Leary, fundador da Ryanair.

A companhia – que prevê transportar 44 milhões de passageiros em 2017 com saída ou destino em aeroportos britânicos – já anunciou que congelará a criação de empregos na Grã-Bretanha, onde opera em 19 aeroportos. Agora pretende, em caso de fracasso das negociações, eliminar os voos “de origem e destino no Reino Unido” a partir de março de 2019.

Uma situação inédita

“Na – muito improvável – ausência de um acordo, os serviços de transporte aéreo entre Reino Unido e cada um dos Estados-membros da UE seriam regidos pelos acordos bilaterais pré-existentes”, explica um especialista do setor que pediu para ter a identidade preservada, ressaltando o ineditismo da situação.

A poucos dias do início oficial do Brexit, foi o próprio negociador-chefe da UE, Michel Barnier, que mencionou as “graves perturbações do tráfego aéreo de e para o Reino Unido” entre as consequências de uma ausência de acordo entre a UE e a Grã-Bretanha sobre a questão das novas fronteiras da União.

O mercado único de transporte aéreo abriu caminho, no final dos anos 1980, à revolução low cost. Em 1992, autorizou o acesso a conexões aéreas intracomunitárias com uma liberalização das tarifas e posteriormente, em 1997, o acesso ao mercado interno de cada Estado.

Duas décadas depois, a Ryanair se encontra no primeiro escalão das companhias europeias, com 117 milhões de passageiros transportados em 2016.

Fazer barulho

No momento, a easyJet e a Ryanair entraram em “uma fase de lobby ativo, fazem barulho, ligam o radar, e é o melhor que podem fazer atualmente, porque o período que se anuncia vai ser complicado em termos de negociações”, avalia Stéphane Albernhe, sócio de transporte aéreo do escritório Archery Strategy Consulting.

Para garantir seus direitos de tráfego na Europa, a easyJet está há vários meses buscando um Certificado de Transporte Aéreo (CTA) em outro país da UE, lembra o analista.

Há ainda o problema das conexões com os Estados Unidos, regulamentadas desde 2007 pelo acordo “céu aberto” entre a União Europeia e o país norte-americano, e as dificuldades ligadas aos capitais das companhias que devem ser comunitárias, ou seja, controladas por Estados-membros da UE ou de seus nacionais para manter seu espaço no setor.

A solução seria, segundo ele, negociar acordos bilaterais com a UE e os Estados Unidos, pedir extensões do mercado único do transporte aéreo ou unir-se à Associação Europeia de Câmbio Livre (AELE), criada em 1960 para Reino Unido e do qual fazem parte Noruega, Suíça, Islândia e Lichtenstein.

Os três primeiros países assinaram acordos bilaterais com a UE, permitindo, por exemplo, à low cost da Noruega operar com base no acordo “céu aberto” nos voos Paris-Nova York.

Com a AELE, o “princípio” de um acordo com essas características existe, mas depende do “espírito colaborativo e de uma nova vontade de convergência” nas negociações, considera Albernhe.

“Se não tivesse extensão, o céu fecharia e o impacto seria muito significativo para companhias como a Ryanair e a easyJet”, prevê.

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