Notícias Varig – 190 – Matéria da CBN de 30.7.16 – Com dívidas de até R$ 11 bilhões, empresas falidas deixam milhares de ex-funcionários sem receber


Por Guilherme Balza

Levantamento da CBN mostra que empresas como Vasp, Varig, Mappin e Banco Santos ainda acumulam dívidas bilionárias; milhares de ex-funcionários ainda não receberam nada das empresas

Os enredos das mais emblemáticas falências no Brasil seguem, quase sempre, o mesmo roteiro. A derrocada começa quando empresários ambiciosos assumem marcas famosas. Depois, os executivos se envolvem em negócios arriscados ou recorrem a práticas fraudulentas de gestão. Resultado? De um dia pro outro as empresas quebram e de sinônimos de prestígio viram exemplos de fracasso.

No caso das companhias aéreas Vasp e Varig, as dívidas só aumentam desde a quebra e já superam os R$ 10 bilhões. A falência do Mappin se arrasta há 17 anos. E o lado mais fraco nessa história, os credores trabalhistas, quando não ficam à míngua, esperam décadas para reaver o dinheiro.

A Vasp faliu em 2008 com um rombo de R$ 5,5 bilhões na época. Em valores de hoje, a dívida já soma R$ 10 bilhões, prejuízo acumulado durante a gestão de Wagner Canhedo. Até agora a massa falida não pagou nenhum dos mais de 6 mil trabalhadores que se desligaram da empresa antes do início da recuperação judicial, em 2005.

Só conseguiu receber alguma coisa quem entrou com ação na esfera trabalhista, como a comissária de bordo Maria Cristina Borchardt, que trabalhou 16 anos na empresa. Na Vasp, ela conheceu o marido, que morreu há seis anos vítima de uma doença degenerativa, sem ter recebido um centavo da empresa. Maria tem direito a quase R$ 2 milhões de reais em dívidas trabalhistas, que poderiam ter ajudado no tratamento do marido. Até agora, a ex-comissária de bordo recebeu uma parcela de R$ 66 mil em setembro do ano passado.

“Vendi a minha casa, comprei um apartamento muito menor, mais barato. Quando meu marido faleceu, não teve inventário. Nós precisamos vender praticamente tudo. A única coisa que eu tenho agora é um carro que nem tá pago. Quero que ele [Wagner Canhedo] viva até ele pagar o último funcionário da Vasp. Pra ver o que ele fez com a vida da gente”, disse.

Aos 85 anos, 47 deles vividos na Vasp, o engenheiro aeronáutico Roberto Cangellar Cossi não recebeu nada e já perdeu as esperanças. “Não recebi nada. E não tenho nem perspectiva de receber. A gente era uma família dentro da empresa. Uma coisa é a Vasp antes da compra pelo Canhedo. Depois que ele comprou aí progressivamente o negócio ficou insustentável.”

Wagner Canhedo chegou a ser preso por sonegação, mas responde ao processo em liberdade. No ano passado, o filho dele, Wagner Canhedo Filho, atualmente o principal gestor do Grupo Canhedo, chegou a ser preso por fraude fiscal e lavagem de dinheiro que geraram quase R$ 900 milhões de prejuízo aos cofres públicos.

A situação na Varig é ainda pior. As dívidas chegam a R$ 11 bilhões de reais e, seis anos depois da falência, nenhum dos 22 mil trabalhadores foi pago. O mesmo ocorre com a Transbrasil, que faliu há quinze anos e deve R$ 2 bilhões.

O processo de falência do Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, já se arrasta há 11 anos e, até agora, pouco mais de um terço da dívida de R$ 3,2 bilhões foi pago. O ex-banqueiro já foi um dos maiores colecionadores do mundo. Parte da dívida foi abatida com o leilão de vinhos e obras de arte que pertenciam a ele.

A mansão de Edemar, projetada por Ruy Ohtake e com o segundo IPTU mais caro de São Paulo, ainda não foi leiloada porque o antigo dono conseguiu barrar o pregão na Justiça, alegando que os valores fixados estavam abaixo do real. A casa é avaliada entre R$ 70 e 100 milhões.

O economista Rodolfo Peano, representante do Comitê de Credores do Banco Santos, se queixa da morosidade em processos como este. “É preciso modernizar esses projetos de atuação de uma área como essa. Disso eu não tenho dúvida. Há de se construir novos modelos de ações. O que não pode acontecer é uma quebra como essa do Banco Santos levar a 15 anos de atuação. Eu imagino que já há muita gente desistindo da ideia de recuperar seu dinheiro.”

Edemar conseguiu outra vitória importante na Justiça no ano passado. Ele foi condenado a 21 anos por gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, mas os advogados dele se aproveitaram de uma brecha legal e conseguiram anular todo processo. Tudo voltou à estaca zero. Hoje, o ex-banqueiro vive em outra mansão, dessa vez, alugada.

Para o desembargador Alexandre Lazzarini, que durante cinco anos foi titular 1ª Vara de Falências de São Paulo, é comum empresários falidos agirem para protelar os processos. “Teve um grande caso que a Justiça do Trabalho mandava penhorar bens de sócios, que não eram falidos – a empresa era falida, mas os sócios tinham patrimônio próprio – eles reclamavam no STJ (Superior Tribunal de Justiça), criavam incidentes, tudo para protelar o pagamento. Infelizmente é um jogo isso.”

Depois que o empresário Ricardo Mansur comprou o Mappin, a única coisa que restou da empresa foram as boas lembranças dos frequentadores da loja. No final da década de 90, o Mappin e outras duas empresas de Mansur, a Mesbla e o Banco Crefisul, quebrar de forma quase que simultânea.

Só a dívida do Mappin ultrapassou os R$ 400 milhões. Dezessete anos depois da falência, apenas 10% do montante foi pago aos 4.500 ex-funcionários. Nelson Alberto Carmona, síndico da massa falida, diz que há R$ 100 milhões em caixa para ser rateado aos credores e mais R$ 50 milhões que devem ser obtidos com o leilão de imóveis.

Há cinco anos, Mansur foi condenado pela Justiça Federal a 11 anos de prisão por gestão fraudulenta, mas ele recorreu e até hoje o recurso não foi julgado. E pior: com a demora para julgar o caso, a pena do empresário prescreveu. Hoje, Mansur continua a frequentar os círculos da elite paulistana enquanto seus antigos funcionários suportam quase duas décadas de calote.

Outro lado

O advogado Marcelo Rocha Leal, que defende Ricardo Mansur, afirmou que todos os bens do empresário já foram vendidos para pagar as dívidas das empresas que faliram. Ele negou que o empresário leve uma vida de luxo. A reportagem procurou Edemar Cid Ferreira, mas ele não quis se manifestar. Os advogados de Wagner Canhedo não foram localizados.

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